Dicas da Capital
19 de Outubro de 2017



Transfigurações

Depois de passar por uns dos principais museus brasileiros, o MAM, no Rio de Janeiro, o MON, em Curitiba, e o MAC, de São Paulo, a CAIXA Cultural Brasília é a próxima sede desta que é a primeira mostra individual na América Latina do aclamado fotógrafo, agora acrescida da série “The Theatre of Apparitions”. Com trajetória profissional iniciada apenas em 1994, Roger Ballen coleciona importantes prêmios pelo mundo e se estabeleceu como um dos mais respeitados de sua geração. Suas fotografias fazem parte de coleções como as do MoMA, em Nova Iorque; Centre Georges Pompidou, em Paris; Maison Européenne de la Photogrpahie e Musée Nicephore Niepce, na França; Victoria & Albert Museum, em Londres; e Stedelijk Museum, em Amsterdã.

Dividida em séries, a exposição que desembarca na Galeria Principal da CAIXA Cultural, de 3 de outubro a 17 de dezembro, “explora temas e gêneros fotográficos do artista que, pouco a pouco, teceu o fio condutor das suas pesquisas estéticas e metodológicas mais particulares”, explana Daniella Géo, curadora da exposição.

Roger Ballen (1950, Nova Iorque) se interessou, inicialmente, pela chamada fotografia de rua, buscando desde situações fortuitas até a sua primeira proposição temática, o universo de meninos em diferentes culturas. Em 1982, ao se mudar para a África do Sul, onde vive até hoje, começou por documentar a arquitetura vernacular das áreas rurais do país e logo trocou as fachadas pelo interior das residências. Da peculiaridade desses espaços íntimos, o enfoque se transpôs, em seguida, aos próprios habitantes.

Filho de colecionadora e galerista especializada em fotografia, nos anos 1970, Roger conviveu com grandes como o francês Henri Cartier-Bresson, o húngaro André Kertész e norte-americano Paul Strand, este que foi o primeiro a inspirá-lo. “Ainda muito jovem, fui cativado pelo trabalho de Paul. Era um fotógrafo de rua, mas trabalhava com seus objetos de uma maneira muito íntima. Seu profundo respeito pelas qualidades formais inerentes a uma fotografia e seu uso do formato quadrado foram significativos para mim”, recorda Ballen, “já à sofisticação de Kertész, eu devo a compreensão do enigma e da complexidade formal que são subjacentes a muito do meu trabalho”, destaca.

Seus primeiros passos como fotógrafo se deram em 1968, quando ganhou uma Nikon FTN pela formatura do ensino médio, “no mesmo dia em que a recebi, fui para os arredores da prisão Sing Sing, perto de Nova Iorque, para fotografar, ainda agora posso lembrar como era o cheiro da câmera naquele primeiro dia”, recorda o artista. À época, Roger se interessava em fotografar homens mais velhos, “e fiz uma imagem de dois homens pescando no lago, em St. Louis, intitulada Old Men Fishing”, considerada por ele como “minha primeira imagem, que continha um aspecto de mim mesmo”.

Na diversidade da obra de Ballen, suas fotografias mantiveram unicidade ao serem tanto associadas à estética do grotesco, quanto impregnadas de certa surrealidade. Segundo a curadora, as imagens apresentadas por Roger “são costuradas pela escolha singular das pessoas, dos objetos e do espaço em que são fotografados, pela estranheza de gestos, pela relação sui generis entre os elementos que compõem a imagem - muitos deles recorrentes –, além de frequentemente evocarem uma proximidade entre humanidade e animalidade”.

A partir de 1995, com a série Outland, Ballen passou a desenvolver imagens fundamentadas nas teorias junguianas, que resultaram no que seria a principal transformação em seu trabalho, quando, para a curadora, “Ballen deixou a fotografia documental para investir na criação de imagens híbridas, que mesclam realidade e ficção, o documental e o teatral, o “simples” retrato e o tableau”, como meio de autodescoberta e autocompreensão. Para Roger, a arte mais importante é aquela que se implanta dentro do subconsciente humano: “Muitas vezes, declarei que quero que minhas imagens sejam como balas virais de ponta de prata: capazes de penetrar o espectador antes de ele estar ciente e, então, se espalhar por todo o corpo como um vírus”.

Em sua série mais recente e que será exibida pela primeira vez na América Latina na CAIXA Cultural Brasília - The Theatre of Apparitions - vê-se a presença de pinturas em suas fotografias. A primeira das imagens desta série foi feita em uma prisão feminina abandonada. “Uma então presidiária havia pintado sobre os vidros das janelas de uma das celas e, depois, desenhado figuras sobre a tinta preta. Pouco depois dessa descoberta, comecei a recriar imagens similares àquelas na prisão, usando janelas de vidro”, descreve Roger. Embora este tipo de trabalho possa ser visto como puramente desenho, é crucial considerar que, “sem minha experiência de décadas de fotografia em preto e branco, essas imagens não teriam sido possíveis e foi fundamental na criação dessa iconografia única”, afirma.

​Dica
:
“Transfigurações, fotografias 1968-2014”
Abertura: dia 3 de outubro, terça-feira, às 19h, com visita orientada pela curadora da exposição, Sra. Daniella Géo
Visitação: de 4 de outubro a 17 de dezembro, de terça-feira a domingo, das 9h às 21h
Local: CAIXA Cultural Brasília - Galeria Principal
​ (​
SBS Quadra 4, Lotes 3/4 - Edifício Anexo à Matriz da CAIXA
​)​
Entrada franca
Classificação indicativa: Livre
​Mais informações: 3206-9448 / 3206-9449 / www.caixacultural.com.br


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