Da Redação
Foto: Gilberto Evangelista
O que é uma abstração? A pergunta – que poderia ser respondida tanto pela filosofia quanto pela psicologia, pelas artes visuais ou por tantas outras áreas do saber humano, mas quase sempre distante do concreto – encontra uma de suas possíveis e mais lúdicas definições em A Cidade Abstrata. O novo livro reúne 100 fotografias do artista multilinguagem Luis Jungmann Girafa. Com edição da Matéria Plástica Arte Atemporânea, a obra é fruto de seus mais de 70 anos de vida, dos quais mais de quatro décadas foram dedicadas às artes no Distrito Federal.
“A Cidade Abstrata” é uma série de fotos que dizem respeito a Brasília e que tem esse conteúdo que não é descritivo, é uma coisa mais provocativa, que são detalhes do urbanismo que nos centra. É um livro que eu busco capturar cenas que não necessariamente correspondam à realidade do que está sendo fotografado, mas que você tenha uma representação”, explica Luis Jungmann Girafa.
O lançamento está previsto para o próximo sábado (9 de maio), a partir das 17h, na livraria Platô (405 Sul). O público poderá adquirir a obra no local (R$ 80) e participar da sessão de autógrafos com o autor, que contará ainda com brindes, apresentação musical do Duo Teclados e Cordas – com Renato Vasconcelos e Paulo Andretta Vares – e uma exposição de diversos quadros de autoria de Girafa, também disponíveis para venda.
A Cidade Abstrata
A publicação reúne uma seleção intuitiva do trabalho de Girafa, evidenciando o refinamento do olhar deste premiado fotógrafo, que atua também como arquiteto, cineasta e artista plástico. A obra sugere uma provocação sobre o espaço de viver e a arte, revelando não somente a geometria de Brasília e suas infinitas possibilidades, mas o interessante paradoxo de uma paisagem urbana que nasceu planejada, feita de materiais que remetem a tudo o que é sólido e perene.
De fato, as imagens captadas por Girafa proporcionam novos ângulos e leituras acerca da capital: a institucionalidade brutalista contrasta com certa precariedade; frestas por onde pessoalidades vazam outros matizes. Transeuntes anônimos, trabalhadores e usuários do equipamento urbano completam e vivificam as cenas. Fruto de financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), o projeto prevê ainda a distribuição gratuita de 30% da tiragem.
Nas páginas de A Cidade Abstrata, fica evidente que “a luz torna-se forma geométrica, a linha se transforma em traço de cor, a textura ganha proporção, e o volume se define como espaço dentro do enquadramento. Luiz Jungmann evidencia, em suas imagens, os variados da linguagem visual, deixando, ao mesmo tempo, uma brecha para o simbólico e o lírico, marcando o desejo de busca pela expressão sensível, em que os elementos visíveis não se limitam a formas composicionais, mas transmitem intensidades subjetivas”, afirma a curadora Cinara Barbosa.
“Nesse ritmo, o livro apresenta imagens que quebram padrões, ora de um modo, ora de outro, trazendo movimento por meio de vestígios de plástico bolha, telas de sombreamento utilizadas na construção civil, sugerindo o passado da cidade planejada. Ao mesmo tempo, revela a Brasília que se transforma em uma escala cotidiana de presença viva, tecida pelas marcas de sua ocupação humana”, complementa a curadora.
Responsável pela pergunta inicial deste texto, a poeta brasiliense Maria Lúcia Verdi – que assina o texto de abertura do livro – acredita que a intenção de Luis Jungmann Girafa é 100% provocativa na obra ao estampar “imagens que documentam a interminável possibilidade de abstração, contida na geometria de Brasília. Recortes exatos, detalhistas, olhar preciso sobre construções e desconstruções presentes na cidade – neles, a presença do cimento, da pedra, do ferro, do vidro, da madeira, do plástico, da argila. Os corpos do concreto em todas as gradações do cinza e em todas as cores. Mas existem reflexos, traços, riscos, fraturas encontráveis em distintas superfícies, que remetem literalmente à arte abstrata – o olhar vagando do chão ao teto, recolhendo-as”.
Já o autor modestamente afirma ser um “fotógrafo sem estilo” que acredita que “a fotografia tem que ir para o papel. Seja no jornal, na revista, no porta-retratos, na parede ou nas páginas de um livro”. Como é o caso de A Cidade Abstrata, um trabalho que nasceu e se desenvolveu de forma muito intuitiva. “Eu não pretendo guiar o olhar de ninguém, prefiro que as pessoas gostem, de alguma forma, que se sintam atraídas pelas imagens e assim façam a sua própria viagem”, sentencia.
Sobre o autor
Luis Jungmann Girafa é uma figura múltipla e transdisciplinar, um autêntico “homem renascentista” do Planalto Central, cuja atuação transita de forma fluida por diversas linguagens. Arquiteto, artista plástico, fotógrafo, cineasta, poeta, cenografista, ilustrador e professor, Girafa tem sua trajetória profundamente entrelaçada com Brasília – cidade onde absorveu, desdobrou e reinventou a herança modernista. Graduado e mestre pela Universidade de Brasília (UnB), onde se consolidou como professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), ele utiliza a visão espacial e o rigor construtivo como alicerces de sua produção.
Nas artes plásticas, destaca-se pela abstração geométrica e pela criação de “maquetes poéticas”. Na fotografia, premiada e reconhecida nacionalmente, foge do mero registro para investigar texturas e composições geométricas, fazendo a ponte entre a tradição dos pioneiros construtivistas e a arte visual contemporânea. Essa mesma percepção do espaço e da luz é transportada para o audiovisual, área em que atua com direção de arte e direção-geral (como no projeto Eu Não Sei), tendo sido consagrado no 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (2021) com dois troféus Candango de Melhor Filme e Melhor Montagem pelo longa-metragem Acaso. Em essência, Girafa une a precisão do arquiteto à subversão do artista: domina as regras do espaço e da gravidade para, por meio da arte, subvertê-las e criar novos mundos.
Dica:
Lançamento do livro “A Cidade Abstrata”, de Luis Jungmann Girafa
Dia 9 de maio, a partir das 17h
Local: Livraria Platô (CLS 405, Bloco A, Loja 12)
Entrada gratuita
Valor do livro: R$ 80 (à venda no local ou diretamente com o autor – Whatsapp: 61 98127-5728)
Instagram: @platolivraria | @luis_jungmann_girafa






